ETFs de renda fixa: como duração e juros moldam os retornos e riscos

Evelin de Jesus
Por
Evelin de Jesus
Evelin Brandão integra a equipe editorial do N1 Mais, atuando na produção, revisão e verificação de conteúdos. Seu trabalho segue critérios de clareza, utilidade pública e...
7 minuto de leitura
7 minuto de leitura
Ouvir notícia
Pronto para ouvir

O mercado de fundos de índice negociados em bolsa (ETFs) de renda fixa tem experimentado um crescimento notável, impulsionado por um cenário de juros elevados e pela simplicidade que esses veículos oferecem aos investidores. Diferentemente dos primeiros ETFs, que replicavam índices de renda variável como o Ibovespa, a categoria de renda fixa ganhou espaço significativo, representando atualmente 32% do total de fundos em quantidade e capturando impressionantes 83% das entradas líquidas entre os 202 ETFs listados na B3.

Esses fundos passivos, que seguem índices específicos, abrangem principalmente papéis atrelados à inflação (IPCA+) e, mais recentemente, títulos pós-fixados que acompanham a taxa Selic. Contudo, apesar de estarem sob a mesma categoria, os 65 ETFs de renda fixa disponíveis no mercado apresentam características distintas que impactam diretamente o potencial de ganho, os riscos e a tributação, exigindo uma análise cuidadosa por parte do investidor.

Diferenças na duração dos títulos e volatilidade

Nos ETFs de IPCA+ e prefixados, a duração dos títulos que compõem a carteira é um fator crucial para determinar o potencial de retorno e a volatilidade. Fundos com títulos de vencimento mais longo, como aqueles com o termo “IMA-B 5+” no nome (apenas títulos com mais de cinco anos) ou o recém-lançado NB1011 (somente títulos de 10 anos), são mais sensíveis às flutuações das taxas de juros. Isso significa que seus preços podem oscilar de forma mais acentuada, tanto para cima quanto para baixo.

Em contraste, ETFs com títulos de vencimento mais curto, como os IMA-B 5 (até cinco anos) e o NB0211 (apenas títulos de 2 anos), tendem a ser mais estáveis, com um ritmo de valorização mais constante. Em um cenário atual de juros persistentemente altos, o preço dos títulos longos tem registrado quedas significativas. No entanto, em um ciclo de queda de juros, a lógica se inverte, e os ETFs de títulos longos podem superar os de curto prazo devido ao efeito dos juros compostos por um período maior.

Um exemplo prático ilustra essa dinâmica: uma queda de 2 pontos percentuais no rendimento de um Tesouro IPCA+ 2032 (com retorno de IPCA+ 8,2%) resultaria em um ganho bruto de cerca de 12% no saldo, equivalente a 6 anos de rendimento. Já para um Tesouro IPCA+ 2050 (com IPCA+ 7,2%), a mesma queda poderia gerar um ganho superior a 40%, correspondente a 24 anos de rendimento. Essa diferença na amplitude dos retornos e quedas é o que confere maior volatilidade aos títulos longos, influenciada por fatores como expectativas de inflação, questões geopolíticas e fiscais, e até mesmo eleições, refletindo-se na marcação a mercado diária.

Tributação e os ETFs pós-fixados

Para investidores que precisam de liquidez no curto prazo e buscam menor volatilidade, os ETFs pós-fixados, atrelados à Selic ou ao CDI, são uma alternativa interessante, pois o ajuste dos juros é diário e o saldo tende a subir consistentemente. Contudo, é fundamental estar atento à tributação, que difere das aplicações tradicionais de renda fixa, como CDBs e títulos do Tesouro Direto.

Nos ETFs, o Imposto de Renda é calculado com base no Prazo Médio de Repactuação (PMR) da carteira, e não no tempo que o investidor mantém a cota. A alíquota pode variar de 25% a 15%, sendo que a menor alíquota é aplicada quando o PMR supera 720 dias. Para fundos compostos integralmente por LFTs (Tesouro Selic), a Receita Federal considera o PMR de apenas um dia, resultando sempre na alíquota máxima de 25%.

Para contornar essa questão tributária, algumas gestoras desenvolveram ETFs híbridos, que combinam LFTs com uma parcela de até 9% de NTN-Bs (Tesouro IPCA+). Essa composição visa aumentar o PMR da carteira e, consequentemente, permitir a aplicação da alíquota de 15% de IR. No entanto, essa vantagem fiscal vem acompanhada de algumas contrapartidas: o retorno pode ficar abaixo de 100% da Selic (atualmente em torno de 95%) e a volatilidade da cota aumenta devido à presença das NTN-Bs. Em momentos de forte alta de juros, esses fundos híbridos podem até registrar prejuízos, embora superem a Selic em cenários de queda de juros.

Considerações para o investidor

A escolha do ETF de renda fixa ideal deve estar alinhada à estratégia de diversificação da carteira e ao perfil de risco do investidor. Para quem planeja resgatar o dinheiro em poucos meses, os ETFs de títulos IPCA+ ou prefixados, especialmente os de longo prazo, podem não ser a melhor opção devido à sua maior volatilidade. Nesses casos, os fundos de índice pós-fixados oferecem uma combinação de baixa volatilidade e liquidez.

No longo prazo, a perspectiva de queda das taxas de juros, com o Boletim Focus do Banco Central indicando uma Selic de 12% ao ano no final de 2027 e 10,5% em 2028, sugere que os investidores devem ponderar os riscos associados à diminuição dos rendimentos. Além da taxa de administração, é crucial analisar o índice replicado, o prazo da carteira, o risco de crédito, a liquidez e o enquadramento tributário de cada fundo antes de tomar uma decisão de investimento.

Este texto é jornalístico e não constitui recomendação de compra ou venda de ativos financeiros. Investimentos em renda variável e fixa envolvem riscos e não garantem rentabilidade futura. O leitor deve realizar sua própria análise e considerar seu perfil de risco antes de tomar qualquer decisão de investimento.

Compartilhar este artigo
Evelin Brandão integra a equipe editorial do N1 Mais, atuando na produção, revisão e verificação de conteúdos. Seu trabalho segue critérios de clareza, utilidade pública e conferência das informações em fontes confiáveis, com atenção especial a dados, orientações, prazos e serviços que possam afetar diretamente a vida financeira e as decisões dos leitores.
Nenhum comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *