Taxas de debêntures e Cris sobem, dividindo mercado sobre oportunidade de investimento

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O mercado de renda fixa privada, composto por debêntures, Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs) e Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs), iniciou o segundo semestre de 2024 em um cenário de incerteza e oportunidades. As taxas de remuneração desses papéis voltaram a se aproximar dos níveis mais altos do ano, gerando uma clara divergência entre as gestoras sobre o melhor momento para o investidor.

Enquanto algumas casas, como a Leto Capital, enxergam uma janela de oportunidades com as taxas historicamente elevadas, outras, como o Pátria, recomendam cautela, prevendo juros ainda mais altos no futuro próximo. Essa polarização se concentra nos spreads, o prêmio adicional que os títulos emitidos por empresas pagam em comparação aos títulos públicos de referência, como o Tesouro IPCA+ 2040.

Retomada das taxas e a visão otimista

A volatilidade recente marcou a trajetória dos spreads. Após uma queda para 0,2 ponto percentual na mínima de julho, impulsionada pela dissipação dos choques de recuperações judiciais e extrajudiciais de grandes companhias, os prêmios voltaram a subir em meados de julho. Esse movimento foi influenciado pela retomada das tensões entre EUA e Irã.

O Índice de Debêntures Anbima (IDA-IPCA) registrou que a taxa média das debêntures alcançou IPCA+8,49% em 15 de julho, um aumento significativo em relação aos IPCA+6,7% de duas semanas antes. Consequentemente, o spread médio subiu para 0,36 ponto em julho, vindo de 0,34 ponto em junho.

Para Pedro Guedes, sócio e chefe de infraestrutura da Leto Capital, o nível atual dos spreads de debêntures de infraestrutura é muito atraente. Ele destaca que o prêmio médio das debêntures incentivadas em relação aos títulos públicos atrelados ao IPCA, medido pelo índice IDEX-Infra da Leto, subiu de 0,3 ponto percentual em junho para 0,36 ponto em julho. Comparado ao início do ano, quando o spread estava em 0,1 ponto, Guedes sugere que faz sentido aumentar a posição em títulos de melhor perfil de crédito (high grade).

A perspectiva da Leto é que, com a diminuição do impacto dos eventos de crédito de grandes empresas, o prêmio possa recuar para os patamares de janeiro de 2026, anteriores a esses eventos. Uma queda de 0,26 ponto percentual nos spreads pode representar um ganho de quase 3% no saldo em reais para quem investir agora no curto prazo.

Pátria alerta para riscos e spreads comprimidos

Em contraste, Alexandre Coutinho, sócio da Pátria e responsável pela carteira de crédito da gestora, adverte sobre os riscos, especialmente no médio prazo. Ele argumenta que, em uma janela de cinco anos, os spreads permanecem comprimidos, contrariando a visão predominante no mercado de que agora é o momento ideal para entrar.

Coutinho reconhece que uma visão de trader pode se beneficiar da dinâmica atual, mas alerta para o risco de errar o momento de entrada e saída no médio prazo. A tese central da Pátria é que todos os cenários macroeconômicos para os próximos trimestres apontam para uma alta adicional dos spreads.

No primeiro cenário, se a inflação ceder e os juros recuarem, o valor das empresas subiria, e o capital represado na renda fixa migraria de volta para a bolsa, o que faria os spreads se abrirem. No segundo cenário, com juros elevados persistindo, empresas mais alavancadas poderiam enfrentar novos eventos de crédito. Isso levaria investidores a venderem papéis e migrarem para ativos do governo, também resultando na abertura dos spreads.

A conclusão de Coutinho é que, independentemente do ambiente macroeconômico, as taxas tenderão a subir novamente. Ele ressalta que o nível atual dos prêmios, mesmo com a recente alta, ainda está abaixo da média dos últimos cinco anos. Uma eventual normalização dos spreads para um patamar mais alto, próximo ao visto entre 2023 e 2024, poderia gerar uma desvalorização significativa dos títulos.

Histórico de volatilidade dos prêmios

O índice IDA-Infra da Anbima, que acompanha o prêmio das debêntures incentivadas sobre as NTN-Bs (Tesouro IPCA+), encerrou abril de 2026 em 0,43 ponto percentual. Esse valor indica que os papéis com isenção de Imposto de Renda pagavam, em média, 0,43 ponto acima das taxas dos títulos públicos equivalentes.

Em outubro de 2025, o IDEX-Infra chegou a registrar spreads negativos de 0,5 ponto percentual. Isso ocorreu devido à alta demanda, que levou investidores a aceitarem taxas menores que as das NTN-Bs, compensando com o benefício fiscal. Nos últimos cinco anos, as debêntures incentivadas apresentaram spreads médios positivos entre 0,8 e 1 ponto percentual, um nível bem superior aos 0,3 ponto atuais.

Em 2023, após os eventos da fraude da Americanas e da recuperação judicial da Light, os prêmios dispararam, com debêntures de rating AAA chegando a pagar 2,0 pontos percentuais acima das NTN-Bs. A reversão foi rápida, com a percepção de que a crise não era sistêmica e o fluxo para fundos de crédito acelerou drasticamente, impulsionado pela busca por isenção fiscal após a tentativa de eliminação do benefício pela Medida Provisória 1.303/25, posteriormente derrubada.

Em abril de 2024, o prêmio médio de uma cesta de 61 debêntures incentivadas high grade sobre a NTN-B de referência já havia caído para 0,26 ponto. Em fevereiro de 2025, o prêmio médio estava negativo, em 0,3 ponto, segundo o IDEX Infra da Leto Capital. Em junho deste ano, as debêntures incentivadas eram negociadas com um prêmio médio de 0,34 ponto, resultando em um retorno de IPCA + 8,8%.

No longo prazo, a oportunidade de travar uma taxa historicamente elevada, capaz de dobrar o capital em pouco mais de cinco anos, pode ser atrativa. Contudo, o investidor precisa estar preparado para a volatilidade do mercado. Novos eventos de crédito, como pedidos de recuperação judicial ou extrajudicial, podem deflagrar mais um movimento de alta nos spreads, um cenário que não pode ser descartado em um ambiente de juros altos por mais tempo, pressionando as finanças de empresas endividadas.

Este texto tem caráter jornalístico e informativo, não constituindo recomendação de compra ou venda de ativos financeiros. A rentabilidade passada não garante rentabilidade futura, e o leitor deve analisar cuidadosamente os riscos antes de tomar qualquer decisão de investimento.

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